Citações #11

Chegou a vez de trazer mais algumas passagens de A lógica inexplicável da minha vida, de Benjamin Alire Sáenz. O livro foi publicado em 2017, no Brasil, pela Editora Seguinte. Trata-se de um livro que simplesmente conquistou meu coração, pois, como eu disse em minha resenha, ele aborda uma infinidade de temas e sentimentos tão nossos. Sobre esse assunto, porém, acabei deixando de lado uma passagem que achei muito bonita:

“O interessante das lágrimas é que elas podem ser silenciosas como uma nuvem flutuando por um céu deserto” (p.21)

Eu quase sempre trago uma passagem sobre lágrimas ou choro aqui, né? É que eu ainda acho que subestimamos muito essa nossa maneira de transbordar alguns sentimentos que carregamos dentro de nós…

Outra citação que acabei deixando de fora da minha resenha foi:

“Palavras só existem na teoria. E então, um dia qualquer, você encontra uma palavra que só existe na teoria e fica cara a cara com ela. E aí essa palavra se torna alguém que você conhece” (p.25)

Pode não parecer para quem não leu o livro e está vendo essa passagem solta assim, mas ela fala, principalmente (e novamente), sobre a descoberta de sentimentos; sobre sentir na pele o preconceito, o medo de algo, o amor, a amizade; sobre entender certos mecanismos da vida e passar a conviver com eles.

Aliás, o fato do autor destacar tanto o poder das palavras foi algo que realmente me encantou ao longo de A lógica inexplicável da minha vida. Eu já disse isso aqui algumas vezes, mas sempre gosto de repetir: palavras possuem força. Elas são capazes de machucar, de curar, de transformar. Por isso temos sempre de tomar cuidado com o que falamos por aí!

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L’isola della paura & La piccola strega

Para o post de hoje, algo um pouco diferente: resolvi trazer duas resenhas em uma única postagem, pois são resenhas de livros infantis que li em italiano. Como seriam duas resenhas curtinhas, achei mais fácil já trazer tudo de uma vez. Preparados?

Livro 1

Título: L'isola della paura
Autor: Claudio Madia
Editora: Feltrinelli Kids
Páginas: 129
Ano: 2004 (2º edição)

Caio é um jovem italiano que vive com seus pais e seus irmãos: Anna (a irmã mais velha), Giò (o irmão mais novo), Leo e Clara. Juntos, eles viajam nas férias de verão, cada ano para um lugar diferente; sempre para uma localidade tranquila.

O destino da vez, onde se passa boa parte da história, é uma pequena ilha. Ali, Caio e seus irmãos, principalmente Clara e Giò, vivem grandes aventuras com as crianças locais. Trata-se de uma história narrada da forma que só uma criança poderia contar: cheia de aventuras, felicidades diante das menores coisas, descobertas únicas.

“Todas as férias do mundo, de todas as crianças do mundo terminam assim: de repente”

L’isola della paura (p.105)

E quando as férias terminam o que acontece? As crianças voltam para a escola… Mas a história não termina por aqui! Antes de voltar às aulas propriamente ditas, Caio encontra seus melhores amigos e eles passam horas e horas contando tudo o que viveram durante o mês que passaram longe um do outro.

“Cresci mais nessas férias que em todo o resto do ano”

L’isola della paura (p.118)

Mas preciso confessar que as partes que mais gostei nesse livro foram justamente aquelas em que Caio fala sobre a sua relação com o universo escolar:

“O professor Conrado costuma dizer que a inteligência não se mede com as notas, nem com os testes de inteligência”

L’isola della paura (p.99)

 

Livro 2

Título: La piccola strega
Original: Die Kleine Hexe
Autor: Otfried Preussler
Editora: Nord-sud edizioni
Páginas: 123
Ano: 2007 (3º edição)
Tradução: Clara Bianchi
Título em português: A pequena bruxa

Essa história começa como os contos de fada – com “era uma vez” – mas conta a história de uma “jovem” bruxa de 127 anos. Tal bruxa, que não recebe nenhum nome específico ao longo da história, mora em meio a um bosque, com seu corvo Abraxas.

O que a pequena bruxa mais queria era poder participar da festa de Valpurga, mas era considerada nova demais para isso. Ainda assim, foi às escondidas e acabou sendo descoberta por outra bruxa ranzinza.

Ficou decidido, por um conselho superior, que a protagonista poderia voltar no ano seguinte, se provasse ter aprendido todas as magias. Assim sendo, a pequena bruxa dedicou-se todo o ano aos estudos. E, por incentivo de seu corvo, aplicou suas magias para o bem.

Ao final de um ano, a bruxinha já sabia tudo, mas… Bem, ela era uma bruxa e deveria aplicar suas magias para o mal e não para o bem. Ao invés de tornar-se uma boa bruxa, ela tornou-se uma bruxa boa! E isso não foi nem um pouco bem recebido pelo conselho superior.

Eu gostei muito desse livro, pois ele me lembrou as histórias de Roald Dahl (que inclusive tem um livro chamado “As bruxas” também) e porque senti que há várias “pequenas lições” ao longo da história, com frases como esta que utilizo para encerrar essa resenha dupla:

“Quem quer obter bons resultados não deve ser preguiçoso”

La piccola strega (p.6)

 

Tag: Skoob – minha estante virtual

Hoje resolvi trazer uma TAG que achei legal e que que vi há um tempo no blog A Bookaholic Girl, administrado pela Camila.

Criei minha conta no Skoob somente no final do ano passado, então ela está atualizada com minhas leituras mais recentes. Vamos nessa?

1. Quantos livros você tem na sua aba LIDOS?

353 livros.

2. Qual livro você está lendo agora?

I pesci non chiudono gli occhi – Erri de Luca

3. Quantos livros tem na sua aba QUERO LER?

Apenas 9. Mas poderiam ser todos que ainda não li em minha vida…

4. Você está relendo algum livro? Se sim, qual?

Nesse momento não.

5. Quantos livros você abandonou? Quais?

Apenas um: Iracema (pois é).

6. Quantas resenhas você tem cadastradas no Skoob?

19 resenhas. Todas elas postadas aqui também.

7. Quantos livros avaliados?

141 livros

8. Quantos livros tem na sua aba FAVORITOS? Cite alguns.

46 livros, dentre eles a Princesinha (eu deveria fazer resenha desse livro que já li umas 4 vezes), o livro das Tatianices, Anarquistas graças a Deus (quando descobri que biografias são legais), O diário de Anne Frank (quando comecei a me interessar por histórias sobre o Holocausto), Menino de Ouro (um dos favoritos dos favoritos)…

9. Quantos livros tem na sua aba TENHO?

143… rs

10. E na aba DESEJADOS?

Apenas 24… (e para quem ficou curioso são: O caçador de pipas; o tatuador de Auschwitz; Ensinando a transgredir; Tulipas azuis; O livro dos dias; Como viver eternamente; Meu menino vadio; O prisioneiro do céu; Nick e Norah, uma noite de amor e música; Malas, memórias e marshmallows; Contos Russos – Tomo III; O mago e o guerreiro; Céu sem estrelas; Redoma de Vidro; Os 13 porquês; Allegro em Hip-Hop; Três é demais; Correndo descalça; 13 segundos; Heroínas; Vocação para o Mal; Sonata em Auschwitz; A garota que bebeu a lua; A bibliotecária de Auschwitz).

11. Tem algum livro emprestado?

Somente “A arte de ler“.

12. Você quer trocar algum livro? Se sim, qual?

Ah, eu trocaria alguns, mas pelo skoob dá preguiça rs.

13. Você tem uma meta no Skoob? Já cumpriu?

Não é uma meta muito específica. No momento tenho 30 livros ali e já li 28 deles.

14. Qual o número no seu paginômetro atualmente?

83.295 páginas e contando…

15. Qual o link do seu perfil no Skoob?

https://www.skoob.com.br/usuario/4258309

La Sposa giovane – Alessandro Baricco

Título: La Sposa giovane
Autor: Alessandro Baricco
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 184
Ano: 2016 (1º edição)
Título em português: A Noiva jovem

Comecei a leitura desse livro achando-o um pouco confuso. Imaginei que o principal motivo disso fosse o fato de ser em outra língua, até que eu finalmente percebi que uma das coisas que estava gerando tal confusão era algo que fazia parte da história:

“Devo explicar, meu amigo, que enquanto escrevia sobre a Noiva jovem, acontecia, às vezes, de eu trocar com ela, mais ou menos bruscamente, a voz que narrava, por razões que, na verdade, são totalmente técnicas”.

La sposa giovane (p.52)

Em outras palavras: o narrador, onisciente, por vezes começava a contar a história como se fosse a personagem principal, narrando, portanto, em primeira pessoa. DO NADA. Cogitei até que o livro fosse uma tradução mal feita, até que essa explicação aí de cima apareceu. Além disso, o autor faz algumas digressões ao longo da história e também, em alguns momentos, conversa com o leitor.

O único personagem que realmente tem nome é Modesto, o mordomo da casa onde vive o Pai, a Mãe, o Filho, a Filha e o Tio. E é nesta casa, também, em que chega a Noiva. Anos antes ela fora prometida em casamento ao Filho, quando ela estava às vésperas de se mudar para a Argentina com sua família. O Filho, por sua vez, foi trabalhar na Inglaterra, e quando sua Noiva retornou ele ainda encontrava-se lá. A família, porém, recebeu muito bem a jovem, acolhendo-a até que o Filho retornasse.

A Noiva, então, enquanto espera que seu noivo volte para casa, tem de se adaptar à rotina da família, que é um tanto quanto excêntrica. E é assim que vamos conhecendo um pouco melhor cada um dos personagens e suas respectivas histórias. A Filha, por exemplo, é uma linda moça e jovem como a Noiva. Há, porém, uma passagem que a descreve que me lembrou muito Machado de Assis (“Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”):

“Mas a verdade torna-se evidente quando saio da minha elegante imobilidade e me movo, demonstrando uma enorme infelicidade, pelo fato de ser manca”

La sposa giovane (p.23)

O Tio, por sua vez, é um personagem que traz coisas interessantes para a construção da história, um personagem totalmente diferente e que passava boa parte de seu tempo dormindo. Ainda assim, era alguém que sempre tinha a resposta certa para dar.

“A imagem do Tio era uma imagem querida na família, e insubstituível”

La sposa giovane (p.21)

O fato do Tio passar o tempo todo dormindo é ainda mais estranho porque os demais personagens, na realidade, não dormem nunca, pois têm medo da noite, que matara todos os seus parentes.

“Eu não me sentia desconfortável – eu gostava, justamente porque era absurdo”

La sposa giovane (p.161)

A atmosfera do livro é muito onírica e, por vezes, sensual e recheada de seduções, além dos inúmeros mistérios que envolvem a família e seus costumes. E tudo isso nos vai sendo revelado conforme a Noiva vai vivendo naquela casa. Também temos as pausas do narrador, que vai nos contando um pouco de sua vida.

“Como acontece às vezes na vida, percebeu que sabia muito bem o que fazer, ainda que ignorasse o que estava fazendo”

La sposa giovane (p.45)

Este livro foi, para mim, totalmente inesperado. Bem diferente do que estou acostumada a ler e, ao mesmo tempo, muito interessante. Um pouco maluco, é verdade, mas interessante. A história não me prendeu desde as primeiras páginas, mas logo fiquei bem curiosa para entender tudo o que se passava naquela casa italiana.

Resumão – Agosto

Agosto foi um mês diferente aqui no blog, pois trouxe uma série de resenhas sobre os livros Contos Russos – Tomo I e II. Antes, porém, postei o Citações #9, no dia 02/08. A parte 1 dos Contos Russos foi postada dia 07/08. Depois, tivemos a parte 2 no dia 09/08, a parte 3 no dia 14/08, a parte 4 no dia 16/08 e a parte 5 no dia 21/08. No dia 23/08 postei o Citações #10 e, para terminar, no dia 28/08 postei a resenha de Trago seu amor em 3 dias.

Com relação às minhas leituras, os livros do mês foram:

  • L’isola della paura (Claudio Madia);
  • La piccola strega (Otfried Preussler);
  • Extraordinário (R. J. Palacio);
  • Trago seu amor em 3 dias (Mel Geve);
  • Italianidade no interior paulista;
  • I racconti di Nené (Andrea Camilleri).

(finalmente um mês de muita leitura!)

E para quem diz que Agosto demora um ano para passar, vai dizer que esse não passou voando? Para mim foi um mês intenso, não só por aqui, com essa série desafiadora sobre os contos russos, mas também no meu dia a dia, me adaptando a uma rotina nova para o semestre que começou. O que será que nos aguarda em setembro?

Trago seu amor em 3 dias – Mel Geve

Título: Trago seu amor em 3 dias
Autor: Mel Geve
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 368
Ano: 2018 (1º edição)

Acho que não importa quantos anos eu tenha, eu sempre vou gostar de ler um belo de um romance. Ainda mais desses que podem parecer improváveis, que a gente acha que só existe nos livros ou nos filmes. Ao menos hoje eu sei que amores lindos existem na vida real também! Mas… vamos à resenha?

Amélia é uma jovem paulistana como tantas outras: cursa Design em uma faculdade particular, tem seus dilemas e suas batalhas particulares, está procurando um estágio, tem duas ótimas amigas – Pipa e Amanda – que estão sempre com ela, adora uma boa balada.

E é justamente numa balada – a preferida dela, aliás – que toda a história começa. Amélia está no Sobradinho, um pouco entediada – uma vez que Pipa está ficando com alguém, deixando-a sozinha – quando Theo aparece para mudar sua noite. E talvez a sua vida.

“Ele parecia um ator contratado por uma equipe de roteiristas especializados em Amélia, pronto para me seduzir. Ele era simpático, sorridente, inteligente, intrigante e mantinha meu interesse sem qualquer dificuldade”

Trago seu amor em 3 dias – p.30

Theo e Amélia estão se dando super bem, até que ele resolve ir ao banheiro e é aí que começa o problema: Amélia tem de ir embora às pressas, pois o tio Joca, pai de Pipa, havia chegado para buscá-las. Amélia não tem opção, senão ir embora, sem ao menos poder se despedir e, pior ainda, sem pegar qualquer contato de Theo. Mas, persistente que só, Amélia se utiliza de todos os recursos possíveis para reencontrar Theo. E sim, está explicado o nome do livro: até à Madame Zumba nossa protagonista recorre.

“As pessoas passam a vida inteira em busca de momentos como esse, sabe? O brilho nos olhos, a conversa fluída, o riso solto, os beijos intermináveis e a atração física magnética… Eu não podia deixar uma coisa assim escapar”

Trago seu amor em 3 dias – p.73

Contudo, antes que vocês achem que o livro se resume a uma Amélia desesperada em reencontrar o amor da sua vida e, mais ainda, que eles vivem felizes para sempre, preciso dizer que há muito mais nessas 368 páginas. A história também consegue abordar questões como feminismo, homofobia, saúde mental e preconceito religioso.

Algumas frases feministas me pareceram um pouco forçadas na história, como se fossem uma tentativa de inserir o assunto em trechos que não precisaria. Por outro lado, o trecho do Theô (sim, com acento… Longa história e só lendo para saber) ficou maravilhoso e foi totalmente necessário, além de ter sido uma ótima saída.

A homofobia também aparece de forma bem breve na história, inserida por um personagem – tio de Amélia – que é gay. Gostei da inserção desse personagem na narrativa, ainda mais pelo fato de que é aquele tipo de pessoa que dá vontade de conhecer.

E por falar em coisas gostosas desse livro, toda a história é contada pela própria Amélia, que intercala sua escrita com diálogos e conversas de whatsapp. Quem mais aparece nesses momentos são suas amigas – Pipa e Amanda – e, claro, Theo. Também não posso deixar de mencionar o fato de adorei todas as zuações feitas sobre o Direito, ainda mais por saber que a autora é formada nesse curso!

“Essas pessoas do Direito eram muito pouco criativas e todos os nomes soavam iguais”

Trago seu amor em 3 dias – p.77

Mas voltando às temáticas do livro, a questão do preconceito religioso aparece quando Theo apresenta a Umbanda para Amélia. Esses trechos são muito incríveis! Para quem, assim como eu, não sabe nada sobre essa religião, é muito bacana aprender um pouquinho.

Já os trechos sobre saúde mental, aparecem mais para o final da história, em conversas entre Amélia, Amanda e Pipa, uma vez que a última, desde o começo do livro, sente-se infeliz com seu trabalho. Aliás, isso, em si, já uma temática bem interessante também e corrobora para o senso de realidade que o livro traz.

“- Sua alma não está à venda, Pipa, algumas coisas nessa vida não são negociáveis, sabe? Sua saúde mental é uma delas”

Trago seu amor em 3 dias – p.349

A verdade é que eu devorei Trago seu amor em 3 dias por causa de tudo isso que descrevi aí em cima. Cheguei ao final – que não é nem um pouco previsível – querendo mais. Inclusive, podia ter uma continuação, já que o final é bem aberto!

“Estar ao seu lado nunca era chato e eu só queria mais e mais e mais, porque eu me sentia roubada na hora das despedidas”

Trago seu amor em 3 dias – p.262

Citações #10

E hoje trago mais algumas citações de A arte de ler, escrito por Michèle Petit e publicado no Brasil em 2010 (2º edição) pela Editora 34. Em minha resenha eu comentei sobre o fato da autora nos apresentar a importância da leitura sob diversas perspectivas, dentre elas, a de nos ajudar em nosso caos interior:

“Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um espaço em crise” (p.20)

A autora também nos mostra algumas especificidades da leitura:

“A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina” (p.22)

É por isso que pais leitores despertam com muito mais facilidade em seus filhos o hábito da leitura. É o famoso “ensinar pelo exemplo”.

Mas ainda sobre as especificidades da leitura:

“Assim a leitura se mostra paradoxal, permitindo ao mesmo tempo uma escapada solitária e encontros” (p.80)

Ler é algo imensamente prazeroso para aqueles que cultivam esse hábito porque querem. Mais que isso, como pudemos notar com esses trechos, é algo que nos ajuda, que nos transforma e que nos salva. Segundo Michèle Petit, ler também faz com que a gente fale. E sou obrigada a concordar com isso, afinal, ter esse blog é uma maneira de falar, de me colocar no mundo e de me apresentar aos outros.

“Ler faz com que as crianças, adolescentes, as pessoas idosas falem por si mesmos, ou uns com os outros” (p.103)

Por fim, deixo uma pergunta feita pela autora. Adoraria ler as respostas de vocês…

“Quais são, com efeito, os textos que ajudam a viver em tempos difíceis?” (p.174)

E então, que livros/textos já te ajudaram em tempos difíceis?

Contos Russos – Tomo I e II (parte 5)

Hoje encerro minha série de posts sobre esses contos russos. Não deixe de conferir também:

Uma coisa muito interessante de ter lido esses contos russos e ter pesquisado mais sobre cada um e seus autores, foi poder perceber o desenvolvimento da literatura desse país. As histórias possuem muitas similaridades, como o fato da maioria delas retratar um jovem casal apaixonado. Ao mesmo tempo, porém, cada uma dessas histórias é única e apresenta um desfecho totalmente surpreendente. Sem contar que é possível ir percebendo as escolhas de cada autor, a forma como eles foram conduzindo suas histórias e o porquê deles pertencerem a determinada “escola literária”.

No post de hoje falarei sobre o conto Lady Macbeth do distrito de Mtsensk escrito por Nikolai Semiônovitch Leskov e publicado em 1865. Trata-se de uma obra que pertence à vertente naturalista da literatura russa e realmente podemos acompanhar, ao longo da história, as transformações da personagem de acordo com as forças que se fazem presente ao redor dela. A narrativa é simples, com um narrador onisciente que conta a história de maneira que o leitor mantém-se entretido e curioso.

O conto começa apresentando a personagem principal, Katerina Lvovna Ismáilova, e, de certa forma, justificando o título dado. Antes de continuar essa resenha, vale lembrar que a Lady Macbeth de Shakespeare é uma mulher forte, que forja o assassinato de seu próprio marido. Em decorrência de suas ações desmedidas a personagem termina por ficar louca…

Katerina Ismáilova, segundo o narrador, não era bonita, mas possuía uma aparência simpática e que estava sempre entediada em sua grande propriedade, onde vivia com o marido, o comerciante Zinóvi Boríssytch e o sogro, Boris Timoféitch. O casamento de Katerina e Zinóvi era totalmente desprovido de amor, realizado apenas por interesse. Além disso, o temperamento seco de Zinóvi só piora a situação, sem contar o fato de que eles nunca conseguiram ter um filho.

O aparecimento do jovem trabalhado Serguiêi muda, no entanto, a rotina de Katerina, que encontrava-se ainda mais entediada na ausência de seu marido, que fora resolver problemas do trabalho longe de casa.

É então que começam a ocorrer traições, trevas e… Assassinatos! Juntos, eles matam o sogro, o marido e até mesmo um sobrinho, que aparece para estragar tudo. Lembremos que este é um conto que pertence ao naturalismo russo e que, portanto, não economiza nem um pouco no horror desses assassinatos e na naturalidade com que os amantes agem durante toda a história.

Por outro lado, trata-se, justamente, de uma narrativa não romântica e que, mais uma vez, não possui um final digno de “e viveram felizes para sempre”. O casal de assassinos acaba sendo descoberto, numa cena que me lembrou muito o filme “Mãe”, quando todos começam a invadir a propriedade dos protagonistas de maneira selvagem. E Katerina, não só pelas atrocidades cometidas, mas também por tudo o que vive após ser descoberta, termina como a verdadeira Lady Macbeth: totalmente entregue à loucura.

“Nem todo caminho, porém, é liso: há, vez por outra, buracos”

Contos Russos – Tomo II (p.136)

Contos Russos – Tomo I e II (parte 4)

Para quem ainda não viu, antes desse post há também o Contos Russos – Tomo I e II parte 1, parte 2 e parte 3. Não deixe de conferir! Nesta parte 4 começarei a falar sobre os contos do tomo II, que traz apenas duas narrativas: O primeiro amor (Ivan Turguênev) e Lady Macbeth do distrito de Mtsensk  (Nikolai Leskov).

Ivan Serguéievitch Turguênev é um romancista e contista russo de renome internacional. O primeiro amor foi publicado em 1860 e pertence ao realismo russo. Trata-se de uma história dentro de outra história: no início, alguns amigos estão conversando e decidem relembrar seu primeiro amor:

“- O meu primeiro amor não pertence, de fato, à categoria de amores banais”

Contos Russos – Tomo II (p.20)

A partir dessa fala, inicia-se a segunda história, que é, na realidade, a maior narrativa do conto. Nos deparamos, então, com as aventuras e desventuras de Vladimir Petróvitch, um garoto de 16 anos, filho único de uma família complicada: sua mãe é uma mulher frustrada e nervosa, que vive descontando suas raivas em Vladimir e seu pai é um homem educado, mas distante do filho e, no geral, frio.

A vida do jovem começa a mudar quando eles vão morar em uma casa de veraneio nos arredores de Moscou e ele conhece Zinaída Alexándrovna, uma linda jovem de 21 anos, filha de uma princesa falida. Mãe e filha moram em uma propriedade vizinha à de Vladimir, em uma casa suja e bagunçada, o que as torna desprezíveis aos olhos da mãe do protagonista.

O garoto, por sua vez, aproxima-se mais e mais dessa família de modos e estilo de vida tão diferentes dos dele. Além disso, ele rende-se totalmente ao amor que sente pela moça, seu primeiro grande amor, entregando-se aos seus próprios sentimentos, em uma história que poderia ser caracterizada como pertencente ao romantismo, não fosse seu realista final, que nada tem de “e viveram felizes para sempre”.

“E toda a história aconteceu porque a gente não sabe recuar na hora certa, romper as redes”

Contos Russos – Tomo II (p.110)

Além disso, é evidente durante toda a narrativa que Zinaída é uma moça que tem total consciência de sua beleza e de seus poderes de conquista, mantendo-se sempre no controle da situação.

Enquanto vive seu amor platônico por Zinaída, Vladimir Petróvitch perde completamente o controle de sua própria vida. É somente quando se afasta dela que ele consegue retomar seus estudos e seu rumo.

A história é narrada em primeira pessoa, pelo próprio Vladímir, mas também apresenta diálogos simples e diretos. A leitura, portanto, não é difícil, ainda mais por se tratar de uma tema conhecido e vivido por todos nós.

 

Contos Russos – Tomo I e II (parte 3)

Antes de ler este post, leia também: Contos Russos – Tomo I e II (parte 1)Contos Russos – Tomo I e II (parte 2).

Neste terceiro post sobre a coletânea organizada pela editora Martin Claret, chegamos aos dois últimos contos do Tomo I, que, relembrando, apresenta textos da época do Romantismo e do Sentimentalismo russo.

Dessa vez, trarei a vocês os contos Vyi O capote, escritos por Nikolai Gógol, notável por sua prosa fantástica, histórica e satírica, elementos que podemos encontrar nas histórias aqui apresentadas.

Vyi, publicado em 1835, traz no título o nome de uma criação terrível do imaginário popular russo. E quando o conto começa, o leitor não tem nem ideia do tipo de história que o aguarda.

Esse conto nos mostra muitos elementos da cultura e dos costumes russos, a começar pela descrição da escola russa e do retorno dos estudantes às suas casas. O narrador, então, se concentra em três amigos – o teólogo Khaliava, o filósofo Khomá e o retor Tibêri – que buscam um lugar para passar a noite.

Quando encontram tal lugar, porém, o verdadeiro horror começa e Khomá torna-se o personagem “principal”, contracenando com a terrível bruxa, uma velha que transforma-se em uma linda moça durante o dia.

Depois de uma das primeiras cenas assustadoras dessa história, passamos a conhecer melhor a jovem filha de um rico cossaco que, à beira da morte, pede que Khoma leia os salmos durante três noites após sua morte. Quando o tal cossaco procura o jovem e lhe explica o desejo da jovem, este nada entende, mas não tem escapatória. O conto, então, passa a narrar os três dias de Khoma, a rotina dele na casa do cossaco, suas tentativas de fuga e suas três noites de puro terror.

Por outro lado, o conto O capote, publicado em 1842, também tem uma pegada de terror, mas somente mais para o final da história, que, como sempre, é surpreendente. O narrador, em alguns momentos, dialoga com o leitor e os personagens são minuciosamente descritos, pois como aparece no próprio conto:

“O caráter de todo personagem de uma novela deve ser, em regra, plenamente descrito”

Contos Russos – Tomo I (p.160)

O personagem principal dessa história é Akáki Akakievitch, um pobre servidor público que é alvo de chacota de todos no escritório, apesar de trabalhar de maneira excepcional.

Por outro lado, poderíamos dizer que o protagonista desse conto é o “capote”, que dá nome à narrativa. Isso porque quando o velho capote de Akáki já não pode ser mais utilizado, o personagem vê-se obrigado a fazer um novo, que torna-se motivo de admiração de seus colegas. Não é somente por esse motivo que eu diria que o capote poderia ser o protagonista dessa história, mas pelo que acontece ao final dela, após a morte de Akáki.

“Sumiu para sempre a criatura que ninguém defendia, a que ninguém dava valor, por que ninguém se interessava, a qual não atrairia a atenção nem mesmo de um naturalista que não perde a oportunidade de perfurar, com um alfinete, uma simples mosca para examiná-la ao microscópio”

Contos Russos – Tomo I (p.190)

É muito interessante perceber como, de certa forma (sem nos esquecermos da distância temporal entre o período em que ele foi escrito e os dias de hoje), esse conto fala sobre bullying, nos apresentando um personagem ignorado por todos e com uma profunda mágoa guardada dentro de si. Vejo, inclusive, como um conto com certo cunho social e satírico, representando uma parcela da sociedade russa de forma realista.

“Feitas as contas, não podemos penetrar na alma de um homem e descobrir tudo o que ele pensa”

Contos Russos – Tomo I (p.177)