Adelphos – M. Pattal

Título: Adelphos - A revelação
Autor: M. Pattal
Editora: PenDragon
Páginas: 370
Ano: 2016 (1º edição)

Não posso começar essa resenha sem deixar de dizer que me apaixonei por Adelphos. Quando li o prólogo da obra eu quase desanimei, pois não estava entendendo nada: um monte de nomes difíceis, um mundo totalmente diferente do nosso. E olha que até mapa tem nesse livro. Naquele momento, pensei comigo: “a leitura será longa e pedregosa como parece ser esse mundo aí…”. Mas, longe disso, a narrativa de Adelphos me envolveu até a última página e agora tudo o que possa fazer é aguardar ansiosamente uma continuação.

“Todas as vezes que você der o seu melhor, você será considerado o melhor”

Adelphos (p.265)

Os capítulos do livro são curtos e a narrativa é sempre interrompida em um momento perfeito para prender o leitor. Além disso, a história vai alternando entre os passos dos personagens principais e também de outros personagens não menos importantes para o desenrolar dessa história.

“Muitas perguntas, poucas respostas”

Adelphos (p.47)

Logo no começo do livro conhecemos, em primeiro lugar, Enzo, um carioca surdo e praticante de tiro com arco. O jovem sonha participar das Olimpíadas e, para isso, treina duro. Além do tiro com arco, esse personagem também gosta de MMA e de nadar. Por ser surdo, Enzo tem problemas com seu pai, que o despreza por sua deficiência.

Depois de Enzo, somos apresentado a Milena, que será chamada de Mila ao longo de toda a história. Ela mora em Santa Catarina e nasceu com um sério glaucoma que a deixou praticamente cega. Ainda assim, ela treina para participar das Olimpíadas como ginasta. Além disso, Mila também pratica Kitesurf. Mila sofre nas mãos de sua madrasta, que a considera uma incapaz.

Por fim, conhecemos Danilo — ou Dan —, um baiano que perdeu uma das pernas após um acidente e que usa uma prótese. Ele treina para poder competir no atletismo das Olimpíadas, além de gostar de praticar escalada. Ele vive com a avó, pois seu pai o abandonou quando ele nasceu e sua mãe o abandonou depois que ele perdeu a perna.

“Ninguém está neste mundo por acaso, ninguém. Todos nós temos um propósito, mesmo que ainda não saibamos”

Adelphos (p.193)

Com essa “pequena” introdução já podemos perceber que esses três jovens têm muito em comum, apesar de morarem em regiões distintas desse nosso Brasil. Mas as coincidências não param por aí: um belo dia, enquanto estão relaxando em diferentes tipos de águas — Enzo na piscina, Mila na Lagoa e Dan em uma cachoeira — eles avistam uma luz e são sugados por ela….

“Três adolescentes com deficiência, querendo provar que é possível participar das Olimpíadas como outros atletas, chegam a este mundo através das águas. Os três ganham uma marca estranha, poderes estranhos e até agora nenhuma resposta”

Adelphos (p.264)

Essa luz os transporta para um outro mundo. E é nesse mundo que tem aquele monte de nome estranho que vi no prólogo e que eu não estava entendendo nada. Mas, aos poucos, passamos a compreender cada detalhe. Vamos desvendando cada canto desse estranho mundo com Enzo, Mila e Dan e também com os companheiros que eles encontram pelo caminho.

“Ter amigos verdadeiros ao nosso lado ajuda a enfrentar os momentos de dor e sofrimento. A verdade é que precisamos uns dos outros para sermos pessoas melhores”

Adelphos (p.319)

O mundo para o qual eles são transportados chama-se Oykos e está dividido em 12 terras: Kéfali, Láthos, Pólemos, Dásos, Agrótis, Metallórykos, Ámnos, Zóa, Mýga, Sóphos, Neró e Adelphia. Cada uma dessas terras possui um lema e, antes de exemplificar, preciso dizer como esses lemas — e tantas outras passagens do livro — fizeram com que eu enxergasse essa história de maneira metafórica. Mas vamos ao exemplo e daqui a pouco me aprofundo nisso. O lema de Agrótis, a terra que cuida dos grãos e alimentos que servem a todas as outras terras é apresentado e explicado na seguinte passagem:

” — Nosso lema é: ‘Semear, Cuidar, Crescer e Colher’. Isso vale não apenas para os cereais, mas também para as nossas vidas. Tudo o que semeamos na vida, com certeza colheremos”

Adelphos (p.63)

Percebem o porquê de minha leitura metafórica? O trecho acima passa muito bem do concreto para o metafórico, o que nem sempre é tão explícito ao longo do livro. Mas até mesmo Oykos, como um todo, não seria um imenso refúgio necessário para os três jovens que sofrem tanto em suas realidades?

“Mila… terremotos e erupções fazem parte da nossa vida, tanto em relação ao Fotiah, como das dificuldades que enfrentamos na vida. Nem por isso podemos desistir”

Adelphos (p.95)

Mas não se enganem: Oykos está muito longe de ser um mundo perfeito. Ali o bem e o mal estão em constante disputa pela dominação total das terras. A opressão ocupa lugar de destaque, ainda que Oykos tenha tudo para funcionar de maneira harmoniosa.

E se quando mencionei o fato de que em Oykos existem 12 terras você — assim como eu — lembrou-se de Jogos Vorazes, é porque ainda não mencionei os Jogos da Liberdade (que apesar do nome, são horríveis), em que cada terra deve enviar um “tributo” para uma ilha onde vivem os prisioneiros de Oykos e as criaturas que foram totalmente dominadas pelo ódio e pelo mal. Vencem aqueles que conseguirem atravessar a ilha e chegar vivos ao outro lado, o que está bem longe de ser uma tarefa simples.

Já deu para imaginar as encrencas que Enzo, Mila e Dan encontrarão pela frente, não? E é incrível ver como tudo é minimamente pensado e construído nessa história. O livro pode até parecer grande, mas não há uma palavra supérflua ali. Fora as milhares de lições de vida e tapas na cara que recebemos ao longo da leitura.

Eu até diria que esse livro me apareceu no momento certo, mas não acho que existiria um momento “errado” para ele aparecer. Um livro que fala sobre amizade, sobre perdão, sobre superação, sobre empatia… Enfim, um livro que fala sobre tantas coisas bonitas certamente poderá te ajudar nos mais diversos momentos de sua vida, seja uma briga banal, um briga séria, um momento de dor, de reflexão e até em momentos de alegria. Adelphos é uma história que nos reconhece como humanos e que nos faz pensar sobre os poderes que temos por sermos quem somos.

“A prática do amor pressupõe doação. Não apenas doação de tempo, talentos e tesouros mas, principalmente doar de si mesmo para o outro”

Adelphos (p.336)

Se você gosta de histórias de fantasia, mas que sabem mesclar perfeitamente a realidade; se você gosta de livros que te fazem refletir, mas que ao mesmo tempo ajudam a distrair a mente; se você gosta de histórias bem construídas… Esse livro é pra você! Tenho certeza de que Adelphos irá conquistar o coração de jovens e adultos, basta que vocês  acreditem e deixem ele entrar no coração de vocês (assim como deve acontecer com a marca de Pneuma…).

Ficou interessado no livro? Compre o seu exemplar na Amazon ou no site da editora PenDragon.

Assinatura

 

Anúncios

1 ano de Blog das Tatianices

1 ano de blog das tatianices

Há exatamente um ano eu decidi publicar meu primeiro post deste blog. Após ler A arte de ler e me sentir inspirada pelo livro e por meu namorado, resolvi voltar a ter um blog. Quem tem um blog sabe que nem sempre é fácil: é preciso ter comprometimento e tempo para trazer bons conteúdos aos nossos leitores. Eu já tive um blog antes desse, mas acabei desistindo dele no meu último ano de faculdade e há um ano comecei tudo do zero novamente.

Mas ali em cima eu falei dos leitores e são vocês que eu quero agradecer hoje. Se este blog, depois de um ano, continua firme e forte aqui é porque cada curtida, cada comentário, cada visita de vocês me lembra que eu não estou sozinha por aqui. E foi por isso que eu resolvi comemorar esse momento realizando o sorteio do livro O paraíso são os outros.

O vencedor do sorteio foi Lillian Ng e já entrei em contato por email, para que a pessoa possa receber o prêmio. Aos que participaram e não ganharam, continuem nos acompanhando aqui e no instagram, pois ainda teremos muitos outros sorteios e conteúdos.

Neste um ano de blog tivemos 96 posts, 347 comentários, 1063 curtidas e 43.658 palavras escritas aqui. E nada disso poderia ser real sem vocês. Obrigada!

E você quer saber como o sorteio foi realizado?

Primeiro criei um formulário no Google Forms e disponibilizei aqui no blog. Ele ficou disponível por cerca de 10 dias. Hoje, eu gerei uma planilha com as respostas (no google é super fácil, basta apertar um botãozinho e a planilha está pronta!) e usei o Sorteador para realizar o sorteio do número. Como nesse sorteio não havia regrinhas a serem seguidas, o primeiro número foi o vencedor. Super fácil e bacana!

Assinatura

TAG: Felicidade é…

tag_ felicidade é...

Outro dia (confesso, já faz uns bons dias) a Bruna — do blog El Diver — me marcou nessa TAG. Antes de respondê-la, gostaria de fazer algumas considerações:

  1. Antes de ver que eu havia sido indicada, eu já estava adorando a TAG e as respostas da Bruna;
  2. Fique muuito feliz e agradecida pela indicação, de verdade!
  3. Resolvi que hoje era um excelente dia para responder esta TAG porque, além de tudo, hoje é meu aniversário!! (:

1. O que você gosta de fazer quando está sozinha?

Eu gosto de ler (mas isso eu faço a qualquer momento), gosto de me exercitar, de tocar piano… Gosto de curtir um pouco os raros momentos em que estou realmente sozinha!

2. O que você gosta de fazer junto com outras pessoas (amigos, família ou namorado)?

Quando estou com outras pessoas eu gosto de curtir o momento também, mas com elas. Gosto de conversar, rir, passear e fazer coisas diferentes (conhecer novos lugares, novas pessoas, etc).

3. Pequenas coisas que te faziam feliz na infância:

Caramba, essa é difícil! Acho que andar de bicicleta, passar uns dias na casa da minha prima, natal em família, comprar o material para a escola… (mas muitas dessas coisas ainda me fazem feliz hoje também).

4. Uma coisa que te deixou feliz essa semana:

Além de hoje ser meu aniversário, gostei muito da volta às aulas do curso de Libras, porque a turma é incrível e amei algumas respostas do formulário do sorteio de 1 ano do blog (ainda dá tempo de participar!!). Vou até compartilhar isso aqui, porque vocês merecem compreender minha alegria. A pergunta é “o que você mais gosta no blog das Tatianices”? Respostas lindas:

 

  • As resenhas, que dão muuuitos vontade de ler os livros, e as recomendações!!! ❤
  • Do amor que a Tati faz transbordar das palavras delas pelos livros.
  • Eu gosto muito da variedade de temas, isto é: este blog não se trata apenas de livros acerca de um assunto X ou Y, mas sim do alfabeto inteiro! Gosto da possibilidade de visitar o blog e poder ser apresentado a uma leitura que não estou acostumado. É bom quando somos surpreendidos por aquilo que não procuraríamos por nós mesmos.
  • As resenhas de livro! Especialmente de livros pouco falados; são resenhas que não encontramos em outros lugares.

5. Cite 3 coisas que te deixam muito feliz:

  • estar com pessoas queridas;
  • passear em um belo dia de sol;
  • sentir certo equilíbrio.

6. Complete: Felicidade é…

poder ver beleza mesmo nas coisas mais simples (:

7. Convide 3 pessoas para responder essa TAG:

Eu adoraria saber as respostas da Bia, do Bipolar e Afins; da Gio, do Atraídos pela Leitura; e da Roberta, do Blog da Tímida. Aproveito para recomendar esses três blogs, bem como o blog da Bruna, que eu mencionei lá em cima!

E não se esqueçam que na próxima terça (12/02) é aniversário deste Blog e está rolando um sorteio aqui. Participem!

Assinatura

A menina dos livros – Oliver Jeffers

Título: A menina dos livros
Original: A child of books
Autor: Oliver Jeffers e San Winston
Editora: Zahar
Ano: 2017

Vencedor do prêmio Bologna Ragazzi (2017), A menina dos livros é um livro que nos encanta desde a primeira página. E não digo isso somente pela dedicatória em que aparece uma citação de Primo Levi — autor italiano que eu admiro — mas porque o livro realmente é encantador.

As páginas não possuem apenas as palavras da narrativa, mas também trechos de muitas outras obras que conhecemos. Esses trechos formam — literalmente, por assim dizer — um mar de palavras. Um mar revolto, cheio de ondas. Um mar em que a menina dos livros tem de navegar em sua simples jangada. E essas palavras também se transformam em caminhos, montanhas, túneis, árvores, monstros, nuvens… Enfim, tudo aquilo que somente as palavras podem ser ou vir a ser.

A narrativa de A menina dos livros é simples e linda. Em meio a histórias que precisamos preservar viajamos com duas crianças por um mundo ricamente ilustrado e apaixonante.

Compre este livro aqui.
E não deixem de participar do Sorteio que está rolando aqui no blog! É super fácil e você concorre a um exemplar de “O Paraíso são os outros”.

Assinatura

Sorteio de 1 ano do Blog das Tatianices

Sorteio de 1 ano de Blog!

Siiim, vocês leram certinho! Dia 12 deste lindo mês o Blog das Tatianices comemora 1 ano de vida e, para celebrar este momento, sortearei 1 (um) exemplar de O Paraíso são os Outros (Valter Hugo Mãe). Para concorrer vocês só precisam preencher este formulário.

O link ficará disponível até o dia 12/02, às 13 horas. O sorteio será realizado por volta das 14 horas do mesmo dia e entrarei em contato com vencedor por email (por isso, preencha esse campo com cuidado). Também divulgarei o resultado aqui no Blog.

Participem e divulguem!

Assinatura

 

 

Resumão – Janeiro de 2019

Resumão - Janeiro

O primeiro mês de 2019 vai chegando ao fim e por aqui tivemos bastante conteúdo (ah, as férias!). Se você perdeu algo, essa é a sua chance de conferir tudo o que rolou!

A primeira postagem que fiz em 2019 foi a resenha de A memória do mar, de Khaled Hosseini, no dia 03/01. Na semana seguinte falei sobre a música Reza a lenda, da banda DNAIPES e sobre o livro O paraíso são os outros, de Valter Hugo Mãe. No dia 15/01 trouxe o Tatianices recomenda [7], com dicas de livros físicos por preços bem baixos,  e no dia 17/01 escrevi sobre o livro A teoria de Tudo (Jane Hawking). Depois, escrevi sobre a música Era um garoto que como eu (Engenheiros do Hawaii) e sobre o livro Da barca do inferno para um auto sem barca, de Marcia Capello. Por fim, minha última postagem, no dia 29/01, foi o primeiro vídeo-poesia que eu e meu namorado fizemos.

Durante o mês de janeiro também li de tudo um pouco:

  • A menina dos livros (Oliver Jeffers e Sam Winstom);
  • A tentação da bicicleta (Edmond De Amicis);
  • O colóquio dos cachorros (Miguel de Cervantes);
  • Meu menino vadio (Luiz Fernando Vianna);
  • O cão que guarda as estrelas (Takashi Murakami);
  • Fome (Knut Hamsun);
  • Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (bell hooks).

E as leituras que ainda estão em andamento são:

  • Adelphos (M. Pattal);
  • Italianos no mundo rural paulista (João Baptista Borges Pereira).

Assinatura

 

Vídeo-poesia 1 – Escola

Vídeo-poesia 1 Escola

Quem diria que de um trabalho de faculdade poderia surgir um projeto interessante para este blog? Em 2018, cursando a disciplina de Política e Organização da Educação Básica no Brasil, meu namorado teve de fazer, para a avaliação final, um vídeo-poesia. Como poeta, ele tirou o trabalho de letra e ainda teve essa brilhante ideia: por que não trazer para o blog vídeos-poesia sobre a nossa cidade? Eu ajudo com as fotos, ele com a poesia e juntos fazemos a união dessas coisas. Como não topar?

Hoje, então, trazemos o vídeo que deu origem a este projeto, o vídeo feito para a disciplina acima mencionada. A ideia era que o estágio realizado (trata-se de uma disciplina de Licenciatura) deveria ser resumido em um vídeo-poesia de até cinco minutos. Neste caso, a poesia e as imagens são de meu namorado e o processo foi realizado na escola pública Roberto Mange.

Me agrada a ideia de trazer um vídeo sobre uma escola pública brasileira e espero que vocês possam observar atentamente as imagens, percebendo as condições de muitas escolas por esse país afora.

Gostaram do vídeo? E da ideia? Deixem um comentário aqui, é muito importante para nós!

Assinatura

Da barca do inferno – Marcia Capella

Título: Da barca do inferno para um auto sem barca: novos horizontes para jovens da rede pública
Autor: Marcia Capella
Editora: Pró-saber
Páginas: 192
Ano: 2014

Ganhei o livro Da barca do inferno para um auto sem barca: novos horizontes para jovens da rede pública do meu melhor amigo, uma pessoa que se interessa muito por educação de qualidade e projetos incríveis e é justamente sobre isso que esse livro fala.

“O próprio projeto Novos Horizontes: educação de excelência para jovens da rede pública guiou-se pela “ideia de extraordinário”. Iniciado em agosto de 2007 e agora finalmente documentado em livro, seu compartilhamento há de reavivar em muita gente o ânimo educativo”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.7)

Impossível não dizer que o livro cumpriu bem seu objetivo: através da descrição do projeto Novos Horizontes, dos depoimentos de alunos e professores e da apresentação da monografia dos alunos — uma releitura do Auto da barca do inferno — é impossível que o desejo de fazer algo transformador e a força em acreditar em uma educação de qualidade não sejam reavivados.

O Novos Horizontes não era um reforço para alunos de escola pública, mas um projeto que buscava ampliar a visão de mundo de seus alunos e oferecer ferramentas que os tornassem cidadãos do mundo. Ali, os alunos tinham aulas de filosofia, português, literatura, história, teatro, arte, coral, matemática, meio ambiente, informática, inglês. Em muitos casos, as disciplinas se mesclavam e davam frutos ainda mais interessantes.

“No lugar do ensino instrumentalizado e partido, pôs-se em prática um verdadeiro exercício de interdisciplinaridade, com o qual se procurou levar os alunos a uma ampla compreensão do conhecimento humano nos âmbitos cultural, histórico, filosófico, social e científico”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.12)

Para entrar nesse projeto, alguns alunos de diversas escolas públicas cariocas foram indicados e passaram por uma entrevista, além de ter de escrever uma redação. A partir disso, foram selecionados os alunos que efetivamente fariam parte do projeto. Em tese, os melhores alunos; na prática, os professores tiveram de adaptar um pouco seus planos.

Para estimular o interesse dos alunos, os professores buscavam instigar quatro atitudes, que são descritas no livro e seguidas de depoimentos dos alunos. Essas atitudes são: pertencimento, compromisso, autotelia e oportunidade de realização.

“Cada um aqui tomou as rédeas da sua própria vida”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.130)

Depois de descrever como funcionou cada disciplina — ou cada conjunto de disciplinas — a autora do livro ainda nos apresenta mais alguns depoimentos dos alunos, obtidos em uma conversa sobre o projeto. Por meio das palavras desses jovens, conseguimos ter uma ideia melhor do que significou para cada um ter feito parte do Novos Horizontes.

“A educação no nosso país parece que é um deserto: chato, vazio, sem graça”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.129)

“Talvez seja aberto demais para implantar em todas as escolas que existem, mas um pouquinho disso não faz mal a ninguém”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.131)

Também vale ressaltar como a visão sobre a educação mudou para esse alunos. Eles passaram a enxergar o aprendizado de outra forma e souberam valorizar a oportunidade que tiveram. Muitos ingressaram em Universidades públicas ou, no mínimo, conseguiram se encontrar ao longo dessa trajetória que durou 3 anos.

“Apesar da vontade de muitos, não houve outra edição do Novos Horizontes”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.25)

O livro todo tenta nos preparar para o anexo final, que é a transcrição da monografia feita pelos alunos: uma releitura do Auto da Barca do Inferno, escrita totalmente pelos alunos, em um texto de 60 páginas, chamado Auto sem barca. Como eu disse, o livro tenta nos preparar para esse anexo, mas não consegue. Ao menos eu não estava nem um pouco preparada para toda a qualidade que tal peça tem.

Substituindo o “anjo” e o “diabo” por “psiquê” e “sociedade”, os alunos do Novos Horizontes colocaram em julgamento personagens de nosso cotidiano: a barraqueira, o traficante, a fofoqueira, a professora, o policial, o gari, o aluno e o mendigo (que encerra a peça — e o livro — nos dando um belo tapa na cara). Minha vontade é fazer o mundo inteiro ler essa releitura da obra de Gil Vicente, de tão maravilhosa que achei!

Assinatura

Era um garoto que como eu – Engenheiros do Hawaii

Era um garoto que como eu

Bem conhecida no Brasil pela banda Engenheiros do Hawaii, Era um garoto que como eu foi lançada, originalmente, em italiano — C’era un ragazzo che come me — por Gianni Morandi e Franco Migliacci, em 1966. A primeira versão brasileira é de Brancato Jr. e foi gravada em 1967 pela banda Os Incríveis. Somente em 1990 surgiu a versão do Engenheiros do Hawaii.

Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo sempre a cantar
As coisas lindas da América

A música, como quem conta uma história, começa falando de um jovem americano que rodava o mundo vivendo de música. Na época, as bandas Beatles e Rolling Stones estavam no auge do sucesso (sendo até hoje muito conhecidas) e eles eram admirados por milhares de jovens. Na versão italiana da música fala-se explicitamente que o jovem vinha dos Estados Unidos (veniva dagli Stati Uniti d’America).

Não era belo, mas mesmo assim
Havia mil garotas a fim
Cantava help and ticket to ride
Oh! Lady Jane e yesterday

O rapaz retratado na música podia não ser bonito, mas cantando fazia muito sucesso entre as garotas (e provavelmente aproveitava muito desse sucesso). As músicas que ele tocava eram músicas das bandas mencionadas acima, que estavam no topo das paradas de sucesso.

Cantava viva a liberdade
Mas uma carta sem esperar
Da sua guitarra, o separou
Fora chamado na América

Todo o sonho e a liberdade de rodar o mundo tocando suas músicas, no entanto, foram logo interrompidos por uma carta que o convocava de volta ao seu país — Estados Unidos — e a partir daí o jovem teve de se separar de sua guitarra, de sua juventude, de seu sucesso. Na música italiana, o tal jovem americano presenteia quem canta Era um garoto que como eu com sua guitarra (La sua chitarra mi regalò), o que”justificaria” o fato de existir uma música em sua homenagem.

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
Mandado foi ao Vietnã
Lutar com vietcongs

Muitos jovens norte americanos foram convocados — por meio de cartas como a recebida por nosso jovem músico — a lutar no Vietnã, suprindo as baixas sofridas pelo exército na Guerra do Vietnã, que durou de 1955 a 1975. Eles lutavam contra os Vietcongs, nome dado aos combatentes da Frente Nacional para a Libertação Vietname, que lutava ao lado do exército do Vietnã do Norte. Em português, o uso de “com” em “lutar com vietcongs” torna o verso ambíguo, pois poderia significar que era para o jovem lutar ao lado deles e não contra eles. Em italiano, porém, a música é bem clara: vá ao Vietnã e atire nos Vietcongs (M’han detto “va nel Viet-nam/ E spara ai Viet-cong”).

Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo, mas acabou
Fazendo a guerra no Vietnã

Já deu para perceber que esta é uma letra bem triste e que não podemos esperar boas coisas do final dela… Os jovens iam para a Guerra sem experiência alguma e tinham repulsão a isso. Eles  só queriam paz, queriam continuar suas vidas.

Cabelos longos não usa mais
Não toca a sua guitarra e sim
Um instrumento que sempre dá
A mesma nota, ra-tá-tá-tá

Ao serem convocados para a Guerra, os jovens tinham de raspar seus cabelos e, sem dúvidas, nosso jovem teve de substituir sua querida guitarra por uma arma, cujo som era monótono e repetido pelas armas de todos os outros combatentes.

Não tem amigos, não vê garotas
Só gente morta caindo ao chão
Ao seu país não voltará
Pois está morto no Vietnã

Sozinho na Guerra, sem amigos, sem mulheres, vendo as pessoas morrendo: era essa a realidade dos jovens que iam para a Guerra do Vietnã. Muitos morreram lá e os que retornaram estavam extremamente abalados fisicamente e emocionalmente. Nosso jovem músico teve o destino de muitos: morreu no Vietnã.

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
No peito, um coração não há
Mas duas medalhas sim

Aos que lutavam na Guerra restava apenas uma coisa: as medalhas de condecoração pelos serviços prestados. Nosso jovem já não tinha mais um coração batendo em seu peito, mas tinha suas medalhas (na música italiana fala-se em duas ou três medalhas: Nel petto un cuore più non ha / ma due medaglie o tre). A música, portanto, termina com uma bela crítica à Guerra e a todo esse infeliz episódio da História.

Uma curiosidade: existe um livro brasileiro chamado Era um garoto, que conta a história de um brasileiro, filho de alemães, que retornou com a família para Berlim durante a adolescência e que foi forçado a integrar o exército de Hitler no final da Segunda Guerra Mundial. O título do livro, apesar de nos remeter à música, não fala sobre a Guerra do Vietnã, mas trata de uma situação semelhante, que tirou a vida de outros milhares de jovens inexperientes (ainda que isso não tenha ocorrido com o protagonista do livro). Se interessou pela obra?Você pode comprar por R$23,30

Assinatura

A teoria de tudo – Jane Hawking

Título: A teoria de tudo
Original: Travelling to infinity: my life with Stephen
Autor: Jane Hawking
Editora: Gente
Páginas: 447
Ano: 2014
Tradução: Sandra Martha Dolinsky e Júlio de Andrade Filho

Dizer que eu adorei esse livro certamente seria mentira, mas não consegui deixar de ler até o fim para entender a visão de Jane Hawking sobre seu relacionamento com Stephen Hawking.

Assisti ao filme homônimo em 2015 e me lembro de ter gostado da história e ter ficado com vontade de ler o livro. 3 anos depois, eu já não me lembrava bem como era descrito o final desse romance — o que me prendeu até a última página — mas o livro me pareceu um pouco mais maçante do que eu esperava.

“Nem três dias, nem três meses e nem mesmo três anos poderiam ter me preparado, ou qualquer outra pessoa, para o que ainda estava por vir”

A teoria de tudo (p.350)

Uma coisa, no entanto, é bem clara e não podemos deixar de mencionar: a vida de Jane Hawking, ao lado de Stephen, não foi nada fácil, e não somente pelo fato da ELA, doença que, aos poucos, foi dominando o corpo de Stephen, mas também por conta de toda a genialidade desse cientista, bem como de seu ceticismo e as difíceis relações interpessoais dele e de sua família.

“A culpa, disse ele, é o risco que se corre esforçando-se sempre para o mais e o melhor; o amor é a única resposta para a culpa”

A teoria de tudo (p.374)

Hoje em dia temos muito mais informações sobre a ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica — do que a que existia na época em que Stephen Hawking foi diagnosticado, recebendo uma previsão de poucos anos de vida (que ele superou e muito!). A ELA é uma doença que degenera progressivamente os neurônios motores do cérebro e da medula espinhal, gerando uma fraqueza muscular que, aos poucos, vai paralisando o portador dessa doença. Ainda não há cura para a ELA.

“As expressões no rosto de Stephen eram sempre uma medida muito mais poderosa de suas emoções do que suas palavras, e nessas ocasiões era o sorriso em seu rosto que transmitia sua alegria inconfundível por seus filhos”

A teoria de tudo (p.154)

O livro está dividido em 4 partes e o que me fez não gostar tanto dele é que a escrita, por vezes, é um pouco confusa. Apesar das mais de 400 páginas, parece que algumas coisas acontecem do nada. Mal fica claro que Jane e Stephen estão namorando e, de repente, eles se casam. O segundo filho do casal também, é mencionado de maneira confusa em um primeiro momento. Mas também não podemos nos esquecer que esse livro foi uma espécie de libertação de Jane. Ela precisava escrever o que escreveu, da forma como fez, para entender tudo o que viveu.

“Como eu amava Stephen, eu queria me dar bem com sua família, gostar deles e ser amada por eles, e não conseguia perceber o motivo de esse relacionamento em particular ser tão difícil”

A teoria de tudo (p.93)

Quando eu defendo a Jane aqui e digo que ela não teve uma vida fácil após casar-se com Stephen, estou me apegando a inúmeros momentos do livro em que eu mesma fiquei angustiada com tamanha pressão em cima dela, tamanha falta de reconhecimento de todos os seus esforços, tamanha repressão.

“O simples fato de ser capaz de racionalizar o medo não me fez lidar com isso com mais facilidade, porque eu tinha vergonha de admitir essa fraqueza, em especial quando nossa vida era estritamente governada por aquela corajosa máxima de Stephen — que, se houvesse uma doença física em casa, não havia espaço para problemas psicológicos também”

A teoria de tudo (p.124)

Uma mente brilhante nem sempre revela um ser humano brilhante. E claro que a doença também teve um papel de grande influência na vida desse jovem casal, que apesar de toda a adversidade, no entanto, conseguiu constituir uma linda família, com 3 filhos, ter uma casa, inúmeros amigos. E todos esses fatores, sem dúvidas foram essenciais para Jane.

“Por medo de machucá-lo, tentei intuir seus sentimentos, sem forçá-lo a expressá-los, estabelecendo assim, inconscientemente, uma tradição de não comunicação que se tornaria intolerável com o passar do tempo”

A teoria de tudo (p.41)

A partir da terceira parte do livro a insustentabilidade do relacionamento entre Stephen e Jane fica ainda mais evidente. Chega a ser angustiante ler essas páginas.

“Era óbvio: estávamos vivendo à beira de um precipício. Ainda assim, é possível, mesmo à beira de um precipício, ficar raízes que penetram rochas e pedras, que se insinuam até mesmo nos solos mais pobres para formar uma base suficientemente segura para os galhos acima, por mais atrofiados que sejam para produzir folhagem, flores e frutos”

A teoria de tudo (p.243)

A quarta parte ainda revela muitos momentos de tensão, até que a situação de ambos se resolve, de uma forma que, creio eu, foi a melhor para cada um. E a paz vai aos poucos se instaurando. O bacana é que, ao final, apesar de todo o peso dessa narrativa, terminamos a leitura mais leves, com a sensação de que as coisas se resolveram. De que houve uma espécie de “felizes para sempre”.

Livro disponível na Amazon por R$34,71.

Assinatura